VOCÊ TEM FOME DE QUÊ? ENTREVISTA PARA REVISTA PAIS E FILHOS
Comer muito ou comer bem? Esse é o problema, porque grávida, a gente quer fazer os dois! O lance é comer bem, com uma dieta balanceada e atenção nos detalhes. Essa é a hora para mudar hábitos alimentares.
Pronto. Você já sabe que está grávida. Como acontece com a maioria das gestantes, provavelmente já contou a novidade para a família inteira, espalhou a notícia até para os menos chegados. A poeira ainda nem baixou e você então se dá conta de que junto com a felicidade e a ansiedade podem surgir dois outros grandes companheiros da gravidez: o mal-estar e o aumento de apetite, em geral exatamente nessa ordem. Durante a gestação, o organismo da futura mamãe sofre várias mudanças fisiológicas, bioquímicas e psíquicas. A começar pelo aumento de estrógeno e de progesterona no corpo – uma explosão de hormônios – nesses 9 meses nada mais será como antes.
É sempre bom lembrar que uma gravidez é diferente da outra, mas geralmente, nos três primeiros meses, a sensação é de desconforto total. Cansaço, náuseas, vômitos, azia, prisão de ventre, sintomas que parecem não ter fim. E, às vezes, não têm mesmo. A advogada- Gabrielli Oliveira Barbosa, mãe de Thomas, vomitava todos os dias após as refeições até o quarto mês de gravidez. Nada parava no estômago e ela desmaiava com freqüência. Quando ficou internada por três dias, Gabrielli percebeu a gravidade do problema. A doença: hiperêmese gravídica, mal que atinge cerca de 1% das gestantes brasileiras e provoca náuseas, vômitos e desidratação. Nos casos mais graves, pode levar a um comprometimento nutricional do feto e até a morte dos dois. A advogada ficou conhecida pelas enfermeiras no hospital, passou por lá 60 vezes (isso mesmo, ela contou!) para tomar soro. “Nada era gostoso, não tinha prazer em comer nada, nenhuma vontade, horrível”, conta. Desejos mesmo ficaram por conta do marido, Márcio, que se encheu de brigadeiro e pamonha e ganhou os quilos que Gabrielli perdeu.
A hiperêmese gravídica costuma acontecer entre a sexta e a 16ª semana da gestação e é um quadro mais preocupante do que a êmese gravídica, que apresenta os mesmos sintomas, porém não de maneira tão agressiva. “Na gestação ocorre uma sobrecarga de hormônios que, associada aos fatores psíquicos, pode resultar na hiperêmese”, explica a endocrinologista e nutróloga e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Vânia Assaly, mãe de Beatriz. Mas não se apavore! É preciso ter certeza de que você tem o problema antes de se desesperar. Uma vez diagnosticado, é preciso procurar acompanhamentomultidisciplinar. Ginecologista, psicólogo e terapias complementares como acupuntura ajudam a superar o mal-estar.
Desejo de formiga
Quando a gravidez e a gula são praticamente uma coisa só, o jeito é se apoiar no velho ditado. Afinal, a gestante come por dois? “Claro que sim, eu tinha uma fome descontrolável como nunca tive antes, só pensava em comer”, revela a advogada Juliana Chequi, 29 anos, mãe de Helena. Se estivesse estressada, um chocolate era a solução. Quando estava à toa, uma taça de sorvete caía deliciosamente bem. Foram 20 quilos a mais e uma lição: “Na próxima gestação, vou fazer dieta e procurar a ajuda de uma nutricionista”, diz. Vale ressaltar que nessa fase tão importante para a mulher, um dos dois é um feto minúsculo em desenvolvimento, cujas necessidades calóricas são bem menores que as da gestante – algo em torno de 300 calorias. “A recomendação de ganho de peso durante a gravidez precisa ser individualizada, porque depende da condição pré-gestacional e da estrutura física da gestante”, afirma a nutricionista Silvia Benvenuti Pereira, mãe de Letícia e Guilherme. Mas o conceito de que, em geral, o ganho de peso deve ser entre 9 e 12 quilos é aceito pela maioria dos médicos.
A estudante Ana Paula Moretto, 29 anos, mãe de Enzo, reforça o mito de que à noite, ou na madrugada, os desejos são mais fortes e muitas vezes mais estranhos. Numa noite típica de verão, Ana Paula sentiu uma vontade inexplicável.
“Eu acompanhava as formiguinhas passeando pela cozinha, minha boca enchia d’água, mas não tive coragem.” As esquisitices contagiaram toda a família. “De madrugada, ela sentia vontade de devorar tapioca com coco, como eu não encontrava, trazia beijinho, ciabata recheada com coco, qualquer coisa para satisfazê-la”, brinca o maridão, o publicitário Marcos Henrique Moretto. A xará Ana Paula Lima e Silva, 19 anos, mãe de Pedro Henrique, também mudou o paladar completamente na gravidez. “Arroz e feijão que eu adoro, simplesmente não conseguia nem olhar. Em compensação, devorava camarões de uma só vez”, diz. Essa confusão nos sabores tem explicação. “Na gravidez, a escolha nutricional às vezes é feita inconscientemente, a mulher tenta preservar o bebê e permite alimentos que antes não tolerava”, explica a doutora Vânia Assaly.
Diferentemente da mãe de Enzo, Ana Paula teve coragem de realizar os desejos. “Não resisti à borra do café, comi como se fosse a refeição mais gostosa do mundo”, conta. Os tijolos da fábrica, onde Ana Paula trabalhava, viraram prato feito. “Raspava com a colher e achava uma delícia”, diz rindo. Mas esses desejos esdrúxulos devem ser levados a sério. Trata-se da picamalácia, quando há o desejo de ingerir substâncias estranhas durante a gravidez. São várias teorias para a causa dessa doença. Alimentos diferentes podem trazer a sensação de que aliviam náuseas e vômitos. Ou pode ser simplesmente uma deficiência de nutrientes essenciais, como o ferro, levando assim a ingestão de substâncias não alimentares que contenham esses nutrientes (terra, por exemplo). “São referências de associação entre a falta do nutriente que ela pode apresentar ou não com a imagem do objeto desejado. Precisamos entender que o cérebro da gestante é mais imaginário e intuitivo do que técnico”, explica a doutora Vânia Assaly.
Para tratar a picamalácia, os nutrientes precisam ser repostos. Nos casos mais graves, a doença traz complicações para a mãe, entre ela feridas na boca, constipação, obstrução intestinal, infecções por parasitas, envenenamento por chumbo. Para o feto, a prematuridade, baixo peso ao nascer, redução de circunferência cefálica e efeitos de exposição aos produtos químicos, tais como pesticidas e herbicidas. Então, já sabe: cuidado se de repente sentir vontade de comer formigas, gesso, terra...
Dicas para uma alimentação equilibrada na gestação
Esta dieta é indicada para gestantes que estão no peso ideal, portanto, quem está abaixo ou acima dele deve procurar a ajuda de um médico e de um nutricionista.
1º TRIMESTRE
Nas oito primeiras semanas, os principais órgãos do bebê estão se formando, entre eles, o cérebro e a coluna. É preciso comer alimentos que contêm ácido fólico e vitamina A, que ajudam na proliferação das células. Abuse do espinafre, da cenoura, batata-doce, manga, melão e beterraba. O zinco é importante para o metabolismo do ácido fólico; as castanhas e carnes de boi e frango têm o mineral. Para evitar enjôos, procure ingerir alimentos com pouco sabor, como bolacha água e sal e chá de hortelã e gengibre. Líquidos gelados provocam a sensação de relaxamento.
2º TRIMESTRE
É a fase de crescimento e desenvolvimento do bebê. Daqui pra frente, crescerão os ossos, os músculos e o coração do seu filho. A gestante vai precisar de suporte energético, ou seja, carboidratos, proteínas e calorias. Faça uma refeição balanceada: no café da manhã frutas da época, iogurte, pão integral; no lanche coma mais frutas e castanhas; no almoço arroz integral, feijão, carnes magras ou brancas, verduras e hortaliças, beba suco de frutas à base de vitamina C; na sobremesa prefira as frutas, repita os alimentos no jantar em menor proporção.
3º TRIMESTRE
O bebê está praticamente com todos os órgãos formados, mas eles ainda precisam ser aperfeiçoados. O aumento do útero comprime os órgãos digestivos, então faça refeições leves e evite tomar líquidos junto com a comida, doces (pobres em nutrientes, ricos em calorias), frituras e gorduras saturadas. Nesses três últimos meses, tente se controlar mais, lembre-se que os quilinhos extras vão te dar trabalho depois!
CONSULTORIA
Dra. Vânia Assaly, mãe de Beatriz, endocrinologista e nutróloga, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Tel. (11) 3884-7612
www.vaniaassaly.com.br
Silvia Benvenuti Pereira, mãe de Letícia e Guilherme, nutricionista. Tel. (11) 5182-8205 www.medicinadamulher.com.br
Manoela Figueiredo, filha de Iza e Marcelo, nutricionista Tel. (11) 3884-7612 manoela.figueiredo@uol.com.br
Renata Sampaio
Revista Pais & Filhos - Edição 439 - Outrubro 2006
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