PERSPECTIVA SOBRE A DOENÇA DE ALZHEIMER
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência nos idosos. Afeta as partes do cérebro que controlam o raciocínio, a memória e a linguagem.
A doença de Alzheimer depende quer de fatores genéticos quer de ambientais. Existem dois tipos de doença de Alzheimer: a DA familiar (DAF), que segue um determinado padrão de hereditariedade, e a DA esporádica, onde não se detecta qualquer padrão de hereditariedade óbvio.
Ao nível molecular, a DA é assinalada por duas estruturas anormais no cérebro: as placas amilóides e os emaranhados neurofibrilares. As placas são depósitos densos e, em grande parte, insolúveis de proteínas e material celular no exterior e à volta dos neurônios cerebrais. Os emaranhados são fibras torcidas insolúveis que se acumulam no interior dos neurônios.
A crescente compreensão dos vários fatores envolvidos no desenvolvimento da DA, incluindo os danos oxidativos e a inflamação, indicou novos caminhos, potencialmente frutíferos, para a prevenção e a investigação sobre o tratamento com fármacos.
Os avanços recentes relativamente à genética da doença de Alzheimer possibilitaram a execução de testes de ADN para diagnosticar e prever a DA, fato que levanta questões de ordem ética, jurídica e social.
A resolução da UE de 11/03/98 sobre a doença de Alzheimer fornece uma perspectiva da situação atual das políticas comunitárias.
1 - INTRODUÇÃO
As últimas décadas testemunharam um aumento das doenças neurodegenerativas, provavelmente como resultado do envelhecimento da sociedade. A UE pode contar com quase meio milhão de doentes com demência todos os anos.
Dada a atual tendência para viver durante mais tempo, deveríamos ter a possibilidade de envelhecer com dignidade.
Existem várias áreas onde podemos trabalhar para combater as doenças neurodegenerativas. Por um lado, deveríamos empreender um esforço científico no sentido de tentar elucidar as suas causas, por forma a podermos evitá-las e tratá-las. Por outro lado, temos de salientar o excelente trabalho que está a ser executado por associações que prestam um grande apoio àqueles que sofrem deste tipo de doenças, bem como às respectivas famílias. Sem estas associações,
seria muito difícil enfrentar esta situação. Por fim, mas não menos importante, deverá existir uma política européia em matéria de saúde que trate deste problema, coordenando e dando apoio financeiro às associações e aos investigadores.
As doenças neurodegenerativas partilham vários mecanismos patogênicos, sendo, por vezes, difícil diferenciá-las. A investigação de uma doença poderá ajudar a compreender as outras. Neste documento, concentrar-me-ei na mais comum destas doenças: a doença de Alzheimer.
2 - A DOENÇA DE ALZHEIMER
Em 1906, o médico alemão Alois Alzheimer identificou, pela primeira vez, ao examinar o cérebro de uma mulher que havia morrido em consequência de uma doença neurológica rara, os aglutinados anormais e os feixes emaranhados de fibras que se consideram presentemente determinantes da doença de Alzheimer.
Desde então, a incidência da doença tem aumentado, fazendo com que a doença de Alzheimer seja a quarta principal causa de morte em adultos. A incidência da doença aumenta vertiginosamente com a idade, sendo a doença duas vezes mais comum nas mulheres do que nos homens. Embora o risco de desenvolver doença de
Alzheimer (DA) aumente com a idade, a DA e os sintomas de demência não fazem parte do envelhecimento normal; o cérebro humano pode muitas vezes funcionar bem na décima década de vida.
Como todos sabemos, as vítimas da doença de Alzheimer sofrem de uma progressiva incapacidade de se lembrarem de fatos e acontecimentos e até mesmo de reconhecerem os próprios familiares.
A doença de Alzheimer é uma doença complexa que é provavelmente causada por várias influências. Os cientistas identificaram diversos fatores genéticos e ambientais que podem aumentar a probabilidade de se vir a desenvolver a doença.
3 - CARACTERÍSTICAS DA DOENÇA
3.1 Perda de memória
A perda de memória na vida diária leva a problemas de comunicação e de comportamento. Será útil considerar os diferentes tipos de memória, para se poder entender como a memória é afetada pela demência:
·Memória episódica: Trata-se da memória que as pessoas têm dos acontecimentos da sua vida, desde os mais comuns aos mais significativos a nível pessoal.
Na memória episódica, existem memórias classificadas como de curto prazo (que aconteceram na última hora) e as classificadas como de longo prazo (que ocorreram há mais de uma hora atrás). As pessoas com a doença de Alzheimer, no início da doença, não parecem ter qualquer dificuldade em lembrar-se de acontecimentos distantes, mas podem, por exemplo, esquecer-se de ter feito algo cinco
minutos antes. As memórias de acontecimentos distantes, embora não sejam muito afetadas, tendem a interferir com as atividades presentes. Isto pode, por vezes, fazer com que a pessoa execute rotinas do passado que já não são relevantes.
· Memória semântica: Esta categoria abrange a memória do significado das palavras. A compreensão partilhada do significado de uma palavra é aquilo que permite que as pessoas tenham conversas com sentido.
Como a memória episódica e a memória semântica não se encontram no mesmo local do cérebro, uma pode ser afetada enquanto a outra não.
·Memória de procedimentos: Trata-se da memória de como se efetuam as ações, física e mentalmente. A perda da memória de procedimentos pode ter como conseqüência dificuldades em realizar atividades de rotina, tais como se vestir, lavar-se ou cozinhar.
3.2 Apraxia/Afasia/Agnosia
·Apraxia: Este termo descreve a incapacidade de efetuar movimentos voluntários e intencionais, apesar de a força, a sensibilidade e a coordenação muscular estarem intactas.
Perspectiva sobre a doença de Alzheimer
·Afasia: Este termo é utilizado para descrever a dificuldade em falar ou compreender a linguagem falada, escrita ou gestual, em conseqüência de uma lesão no centro nervoso correspondente. Pode envolver a substituição de uma palavra por outra que lhe esteja ligada pelo significado, a utilização de uma palavra para substituir outra com um som semelhante ou a utilização de uma palavra totalmente diferente
sem qualquer ligação aparente.
· Agnosia: Descreve a perda da capacidade de reconhecer o que são os objetos e para que são utilizados. Por exemplo, uma pessoa com agnosia pode tentar utilizar um garfo em vez de uma colher ou um sapato em vez de uma chávena. Relativamente às pessoas, pode fazer com que não se consiga reconhecer quem são as pessoas.
3.3 Comunicação
As pessoas com doença de Alzheimer têm dificuldades tanto na produção como na compreensão da linguagem.
3.4 Alteração da personalidade
As pessoas com doença de Alzheimer podem ter comportamentos totalmente em desacordo com o seu caráter, podendo comportar-se de forma agressiva, malcriada ou carrancuda.
3.5 Comportamento
Um sintoma comum da doença de Alzheimer é o vaguear, tanto de dia como de noite. A desorientação no tempo e no espaço pode também ocorrer.
3.6 Alterações físicas
Pode ocorrer perda de peso, mesmo quando é mantida uma ingestão normal de alimentos. Outra conseqüência da doença de Alzheimer é a contabescência dos músculos e, quando o doente já está acamado, dá-se o problema das escaras. À medida que as pessoas envelhecem, a sua vulnerabilidade em relação às infecções aumenta e muitas pessoas com a doença de Alzheimer morrem de pneumonia.
4 - BASE MOLECULAR E GENÉTICA
4.1 DAF e DA esporádica
Pode-se fazer a distinção entre duas formas da doença:
A doença de Alzheimer familiar, autossômica dominante e de início precoce (DAF), que afeta apenas 1% dos doentes, e a doença de Alzheimer esporádica, que representa os casos restantes.
Todavia, ambas as formas da doença apresentam as mesmas características neuropatológicas: as placas amilóides e os emaranhados neurofibrilares no cérebro.
A DAF deve-se a mutações em três genes: a proteína precursora da amilóide (PPA), a pré-senilina 1 (PS-1), e a pré-senilina 2 (PS-2). O padrão de hereditariedade desta forma da doença é autossômico dominante, o que significa que os descendentes têm uma hipótese de 50/50 de desenvolver DA se um dos seus progenitores
sofrer da doença.
Outra diferença entre a DAF e a forma esporádica da doença é que a primeira se apresenta geralmente antes dos 60 anos de idade.
A DA esporádica parece estar associada ao fato de se ser portador do alelo 4 do gene ApoE, que representa uma lipoproteína que ajuda a transportar o colesterol no sangue.
Genes assocAlzheimeriados à doença de Gene Cromossoma
PPA 21
PS-1 14
PS-2 1
ApoE4 19
Tau 17
4.2 O gene ApoE
O gene ApoE pode apresentar diversas variantes (polimorfismos) na população, denominadas alelos. O fato de ser portador do alelo ApoE4 tem sido associado à forma esporádica da doença de Alzheimer, não sendo, todavia, necessário nem suficiente para causar a doença. O gene ApoE cria uma proteína encarregue de transportar o colesterol no sangue. Num estudo publicado em Março de 2001, em Neurologia, o fato de se ser portador do alelo ApoE4 contribui para a perda de peso nas mulheres com DA. Existem testes genéticos para identificar os alelos ApoE que uma pessoa possui, pois esta apolipoproteína está também associada a doenças cardíacas. Os testes de ApoE levantam questões de ordem ética, jurídica e social, pelo que deverão ser protegidos por leis relativas à confidencialidade.
4.3 A proteína Tau
A Tau, uma proteína associada aos microtúbulos, facilita a junção e a ligação destes na célula. Ao apoiar a estrutura do citoesqueleto e ao suster o transporte axonal, a Tau desempenha um papel fundamental na sobrevivência dos neurónios. Uma Tau anormalmente fosforilada é um componente importante do emaranhado neurofibrilar, uma das lesões características da doença de Alzheimer.
Nos últimos anos, a investigação sobre a doença de Alzheimer concentrou-se nas placas Ab, alegando que os emaranhados neurofibrilares eram uma lesão secundária resultante destas placas.
Todavia, o interesse inverteu-se em direcção à Tau, com a conclusão de
que as mutações no gene Tau, que se encontra no cromossoma 17, estão associadas a diversas demências hereditárias para além da doença de Alzheimer (Clark etc al, 1998). Estas perturbações são coletivamente denominadas "demência frontotemporal e parkinsonismo associados ao cromossoma 17" (FTDP-17) e diferem da doença de Alzheimer relativamente à área do cérebro que é afetada e à ausência de placas Ab nestas doenças. Estes estudos defendem a idéia de que a própria Tau pode contribuir de forma importante para a neurodegeneração. Um objetivo primordinal da investigação sobre a DA é determinar exatamente a relação existente entre as placas e os emaranhados.
4.4 As placas senis
As placas senis são principalmente constituídas por um peptídeo denominado b-amilóide, que é o resultado da clivagem de uma proteína precursora, a PPA.
Esta última pode ser processada de duas maneiras diferentes, uma das quais leva à produção da proteína amilóide. A enzima responsável por este processo chama-se gamasecretase. Todavia, a proteínamilóide não é tóxica até adquirir a conformação folha-b. Outro componente das placas senis é a já mencionada apolipoproteína. A apolipoproteína pode funcionar como proteína chaperone, comandando a forma das outras proteínas. Poderá então participar no metabolismo do peptídeo Ab.
As pré-senilinas estão igualmente envolvidas neste metabolismo, embora não se saiba ainda qual o seu verdadeiro papel. Os investigadores da Faculdade de Medicina de Harvard e do Hospital Brigham and Women's em Boston alteraram a sequência normal do aminoácido pré-senilina 1 em dois locais críticos e descobriram que a formação da beta-amilóide era diminuída. Estas provas sugerem que a pré-senilina 1 é a própria gama-secretase ou um co-fator úniconecessário para a atividade da gama-secretase. (Wolfe et al, 1999
5 - FACTORES AMBIENTAIS
Tal como já afirmamos, a genética, por si só, não pode explicar facilmente os fatos que ocorrem na doença de Alzheimer.
Foram explorados vários fatores ambientais: o alumínio, os solventes, os campos eletromagnéticos... mas nenhum deles parece apresentar um risco sério.
Por outro lado, existem provas que sugerem que uma pessoa que tenha sofrido uma forte pancada na cabeça pode estar em risco de desenvolver a doença de Alzheimer.
A raça, a profissão, a situação geográfica e socioeconômica não são determinantes da doença.
Todavia, há cada vez mais provas que sugerem que as pessoas com um nível mais elevado de formação acadêmica correm menos riscos do que as que possuem um nível inferior de formação.
Foram também evocados agentes infecciosos como os priões, na medida em que existem determinadas formas da doença de Alzheimer que apresentam depósitos de Ab semelhantes aos da proteína do prião.
6 -PREVENÇÃO E TRATAMENTO
Assim que entendermos a base molecular da doença, teremos mais hipóteses de a prevenir e curar, embora esta questão não seja simples. Ainda há muitas perguntas sem resposta e muito trabalho a fazer para clarificar o decurso dos acontecimentos. Não se deverá considerar apenas o tratamento da doença de Alzheimer, mas dever-se-á também considerar a prevenção como a melhor solução, especialmente
quando quem dela sofre são os idosos, o que dificulta o tratamento.
6.1 Estrogênio
A investigação de vários centros médicos sugere que as mulheres que fazem estrogenoterapia de substituição (ETS) para aliviar os sintomas da menopausa podem ter também alguma proteção contra o desenvolvimento da doença.
O estrogênio tem efeitos antioxidantes e antiinflamatórios, melhorando ainda o crescimento de neurônios selecionados que libertam acetilcolina.
Um relatório de um estudo de longo prazo do National Institute on Ageing (NIA) associou a ETS em mulheres na fase pós-menopausa a uma redução de 50% no risco de desenvolvimento da doença de Alzheimer. Por outro lado, outros resultados publicados no Journal of American Medical Affairs (JAMA) em Fevereiro de 2000, indicam que a ETS não tem qualquer efeito significativo no desenvolvimento da doença. Segundo Glenn Smith, embora o estrogênio possa reduzir o risco de desenvolvimento da doença de Alzheimer, não constitui uma terapia eficaz para a mesma. A utilização da ETS está limitada às mulheres devido aos seus potenciais efeitos de efeminação nos homens.
6.2 DHEA, pregnenolona e melatonina
A DHEA é uma hormona esteróide produzida pelas glândulas supra-renais. É uma precursora para a produção das hormonas sexuais testosterona e estrogênios e a sua produção diminui com o stress e a idade. Foi comercializada e anunciada na comunicação social como a nova "fonte da juventude", como conseqüência dos seus efeitos na melhoria dos níveis de energia, resistência ao stress e na ativação
do sistema imunitário.
A pregnenolona é sintetizada de forma natural a partir do colesterol. Uma parte dela dá origem a DHEA e outra parte é utilizada para produzir progesterona, cortisol e aldosterona. Assim sendo, é, de certa forma, a "mãe" da DHEA e a "avó" da testosterona e dos estrogênios. Os níveis de pregnenolona são muito elevados no cérebro e crê-se que esta hormona tenha os efeitos mais fortes na melhoria da memória.
Por fim, a melatonina é outra hormona sintetizada pela epífise. É produzida durante a noite, em reação à escuridão, sendo a sua principal função a de regular o nosso relógio biológico; melhora o sono, estimula o sistema imunitário e protege o sistema nervoso central.
Comprovou-se que a melatonina é um antioxidante muito poderoso.
Estas três hormonas têm em comum o fato de que a sua produção diminui drasticamente com a idade e têm efeitos benéficos na proteção dos neurônios. Por conseguinte, as suas formas sintéticas têm sido
utilizadas, com bons resultados, para tratar a doença de Alzheimer.
6.3 Anticolinesterásicos
Outra abordagem ao tratamento da doença de Alzheimer tem sido constituída pela utilização de anticolinesterásicos. A colinesterase é uma enzima que faz a clivagem dos neurotransmissores de colina, por forma a interromper o sinal sináptico. Fármacos como a tacrina, o donepezil, o metrifonato, a rivastigmina e a galantamina (Grutzendler, J.; Morris, JC., 2001) bloqueiam esta enzima, aumentando a disponibilidade de acetilcolina nas sinapses centrais e causando efeitos significativos sobre o estado cognitivo dos pacientes, bem como um efeito positivo na disposição e no comportamento dos mesmos.
6.4 Boa forma mental
Estudos mostram que o fato de se manter uma boa forma mental pode atrasar o aparecimento de demência.
Um destes estudos concentrou-se numa grande ordem de freiras que pareciam ter baixas taxas de incidência da doença de Alzheimer, apesar da sua idade média ser de 85 anos. Muitas das freiras possuíam graus acadêmicos avançados e tinham uma vida intelectualmente desafiante até serem idosas. Alguns investigadores acreditam que o exercício mental e a aprendizagem ao longo de toda a vida podem promover sinapses adicionais e atrasar o aparecimento de demência. Um estudo com gêmeos suecos, apresentado no Congresso Mundial de Alzheimer 2000, chegou à mesma conclusão.
6.5 Vitamina E
Os radicais livres são moléculas de oxigênio com falta de elétrons, gerados no decurso normal do metabolismo. Durante a procura dos elétrons que lhes faltam, os radicais livres oxidam outros componentes das células, tais como a gordura, as proteínas ou o ADN, o que danifica as células saudáveis, incluindo os neurônios.
Para combater o efeito dos radicais livres, o corpo utiliza antioxidantes, um dos quais é a vitamina E.
Podemos encontrar esta vitamina em óleos vegetais, nos ovos, no peixe, nos vegetais de folha verde e nos feijões.
A vitamina E é necessária para a produção de glóbulos vermelhos normais e para a estimulação do sistema imunitário. Foi também comprovado que protege contra doenças cardiovasculares ao unir-se diretamente à LDL (lipoproteína de baixa densidade) encarregue de transportar o colesterol no sangue.
Um excesso de radicais livres pode contribuir para algumas doenças, incluindo a doença de Alzheimer.
Segundo um estudo publicado no New England Journal of Medicine (Abril, 1997), as pessoas com uma doença de Alzheimer moderada, a quem foram administradas elevadas doses de vitamina E, tiveram um abrandamento temporário da progressão da doença, talvez devido à desintoxicação dos radicais livres. No entanto, embora estes pacientes tivessem mostrado uma melhoria na sua capacidade de realizar
atividades da vida diária, não houve qualquer efeito no seu funcionamento cognitivo, que inclui a memória, a atenção, a linguagem e a compreensão.
Enquanto se aguardam mais investigações neste domínio, é ainda demasiado cedo para recomendar suplementos de vitamina E para a população geral, a título de prevenção da doença de Alzheimer.
6.6 Níveis reduzidos de vitamina B relacionados com a doença de Alzheimer.
O ácido fólico desempenha um papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso central e na manutenção da sua integridade ao longo da vida. Uma das funções do folato, juntamente com as vitaminas B6 e B12, é converter a homocistina em metionina, um aminoácido mais útil. Níveis reduzidos de vitamina B-12 e folato no sangue podem levar a aumentos do aminoácido homocisteína, o que, por sua vez, danifica as células nervosas.
A maior parte das pessoas obtém vitamina B-12 suficiente nas suas dietas, mas algumas, incluindo os idosos, têm mais hipóteses de sofrer uma falta destes elementos. Esta vitamina encontra-se na carne, no peixe, nos ovos e no leite. O folato encontra-se em vegetais de folha verde, nos feijões, nas ervilhas e nos cítricos.
Num estudo realizado por investigadores suecos no Instituto Karolinska, em Estocolmo, descobriu-se que os homens e as mulheres com 70 anos ou mais e que tinham baixos níveis de qualquer uma destas vitaminas tinham o dobro das probabilidades daqueles com níveis normais de desenvolver a doença de Alzheimer num período de 3 anos.
6.7 Restrição dietética
A doença de Alzheimer é caracterizada por níveis mais elevados de tensão oxidativa, um metabolismo da energia perturbado e uma acumulação de proteínas insolúveis (modificadas oxidativamente), entre as quais se encontram as proteínas Ab e Tau. Um espantoso conjunto de dados provenientes de estudos efetuados com roedores e macacos documentou os profundos efeitos benéficos de uma restrição dietética na redução da incidência de doenças relacionadas com a idade. Resultados recentes sugerem que a restrição dietética pode melhorar a resistência dos neurônios do cérebro a agressões metabólicas, excitotóxicas e oxidativas relevantes na
patogênese da doença de Alzheimer e de outras perturbações neurodegenerativas. Enquanto se aguardam os resultados de mais estudos, seria prudente recomendar uma restrição dietética como abordagem preventiva às perturbações neurodegenerativas.
6.8 Inibidores do apoptose
Quando os seres humanos cometem suicídio, é quase sempre uma tragédia. Mas no organismo, o suicídio das células, ou apoptose, é crucial para a vida. Ocorre durante o desenvolvimento e retira as células danificadas nos adultos de uma forma limpa e organizada. No entanto, um excesso de apoptose pode contribuir para algumas doenças degenerativas como a doença de Alzheimer.
Os aumentos da tensão oxidativa das células relacionados com a idade e a perturbação do metabolismo da energia resultam na interrupção da homeostasia do cálcio dos neurônios e numa maior vulnerabilidade destes à excitotoxicidade e à apoptose.
As formas hereditárias da doença de Alzheimer que resultam de mutações na PPA e nas pré-senilinas aceleram a cascata neurodegenerativa, aumentando a produção e a deposição de formas neurotóxicas de peptídeo beta-amilóide e perturbando a homeostasia do cálcio.
Os investigadores descobriram que os cérebros de doentes de Alzheimer contêm neurônios moribundos que apresentam sinais característicos de apoptose, tais como rupturas no ADN. Foi em 1993 quando, pela primeira vez, duas equipas de investigadores da Universidade da Califórnia e do Instituto de Investigação Farmacológica em Milão mostraram que a Ab, que se acumula nos cérebros das pessoas que sofrem da doença de Alzheimer, faz com que os neurônios em cultura morram de apoptose.
Devido à falta de bons modelos animais da doença, ninguém foi capaz de testar se os inibidores do apoptose podem proteger contra a morte das células na doença de Alzheimer, como fazem em certos modelos animais para o acidente vascular cerebral. Mas até que as incertezas relativamente à interferência no apoptose dos neurônios sejam esclarecidas, os investigadores continuam interessados na potencial aplicação terapêutica destes resultados.
6.9 Vacinação
Num estudo publicado em 1999, uma equipa de investigadores anunciou ter testado uma vacina, conhecida como AN-1792, em grupos de ratos geneticamente programados para desenvolverem placas amilóides nos seus cérebros. Quando injectada numa fase inicial, a vacina evitou a formação de placas nestes ratos e pareceu reduzir o número de placas nos cérebros de ratos mais velhos.
Muito provavelmente, a AN-1792 desencadeia uma resposta imunitária que cria anticorpos anti-amilóideb, que se unem às placas, e estimula as células microgliais que começam a retirá-los. Mas há ainda muitas questões por responder: segundo o Dr. Knopman, mesmo que consigamos evitar que as placas se formem ou livrarmo-nos das placas antigas nos cérebros humanos, será que a pessoa afetada pela doença de Alzheimer ainda vai ficar ou continuar esquecida?
As investigações realizadas em ratos mostraram que os défices de memória melhoram depois de várias vacinações; todavia, os cérebros e os sistemas imunitários dos ratos são muito diferentes dos humanos. A AN-1792 está ainda na primeira fase de ensaios clínicos em humanos. Os estudos apenas examinaram a segurança da vacina, mas não se sabe se esta se mostrará eficaz no tratamento das placas e da
perda de memória.
6.10 Terapia da célula germinal
Nas fases iniciais do desenvolvimento embriônico, as células têm a capacidade de se dividirem indefinidamente e de se diferenciarem, então, transformando-se em qualquer tipo de célula do corpo.
Estudos recentes revelaram que muito deste potencial de desenvolvimento notável das células germinais embriônicas é mantido por pequenas populações de células na maioria dos tecidos do adulto. Os sinais intracelulares que controlam a proliferação, a diferenciação e a sobrevivência das células germinais incluem uma variedade de fatores de crescimento, citosinas e moléculas de adesão celular que estão a ser identificados. Conclusões recentes sugerem a possibilidade de que uma diminuição nos números ou na plasticidade das populações de células germinais contribui para o envelhecimento e para doenças relacionadas com a idade (Rao, MS; Mattson, MP;
2001). A plasticidade notável das células germinais permitiria a "afinação" de células germinais endógenas ou transplantadas de tal forma que estas podem substituir células cerebrais danificadas ou perdidas em variadas perturbações do foro neurológico.
6.11 Activação da telomerase
Os telómeros são estruturas especializadas que limitam as extremidades dos cromossomos e tendem a encurtar com a idade. A telomerase é uma enzima que, especificamente, completa as extremidades dos telómeros, através da atividade de transcriptase reversa da sua subunidade catalítica, a TERT. A telomerase é expressa nos neurônios em todo o cérebro em desenvolvimento, mas está ausente dos neurônios do cérebro dos adultos. A TERT apresenta propriedades neuroprotectoras em modelos experimentais de perturbações neurodegenerativas (Mattson, MP., 2000), o que sugere que as manipulações que induzem a telomerase nos neurónios
podem proteger contra a neurodegeneração relacionada com a idade.
7 - TESTES GENÉTICOS PARA A DOENÇA DE ALZHEIMER
A utilização de informações genéticas levanta importantes questões de ordem pública, social e moral.
Cientistas, éticos e outros profissionais de saúde reuniram-se em Outubro de 1995 para escrever uma declaração de política pública acerca da adequação dos testes de ApoE e do papel do aconselhamento genético na DA. As discussões que levaram à declaração decorreram numa conferência em Chicago, patrocinada pelo National Institute on Ageing (NIA) e pela associação de Alzheimer.
A declaração de política pública apóia a utilização de testes de ApoE, apenas para fins de diagnóstico, em conjunto com outros testes durante avaliações médicas de doentes que mostrem sintomas de DA. Uma vez que a DA se desenvolve na ausência do ApoE4 e que muitos portadores do ApoE4 parecem escapar à doença, não recomenda a utilização dos testes de ApoE como método de previsão.
Em situações em que os testes de previsão utilizando o ApoE possam ser válidos, será crucial avaliar o impacto deste conhecimento sobre indivíduos saudáveis e seus familiares, dado que não existe nenhuma forma eficaz de prevenir ou curar a doença.
Deverão ser criadas salvaguardas para garantir que a autorização é dada com base em informações e que os indivíduos em maior risco não serão sujeitos a discriminação por parte dos empregadores ou das seguradoras.
É essencial realizar estudos de investigação básica e clínica coordenados antes da introdução dos testes de ApoE na prática clínica. Talvez surja uma maior utilidade para os testes de ApoE na avaliação das opções terapêuticas para pacientes individuais.
8 - A União Européia e a Doença de Alzheimer
A doença de Alzheimer foi assunto de debate no PE no passado e continua a figurar entre as prioridades da investigação biomédica.
8.1 Resolução de 11/03/98 sobre a doença de Alzheimer
"O Parlamento Europeu,
-Tendo em conta a sua Resolução de 17 de Abril de 1996 sobre a doença de Alzheimer e a prevenção das perturbações da função cognitiva nas pessoas idosas(1),
-Tendo em conta a alteração do artigo 129.º do Tratado CE, relativo à saúde pública, introduzida pelo Tratado de Amesterdan, que, embora não reforce, como se esperava, a competência da União neste domínio, previu contudo que, na definição e aplicação de todas as políticas e atividades da Comunidade, seja assegurado um elevado nível de proteção da saúde humana,
-Tendo em conta a proposta da Comissão relativa ao Quinto Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico (1998-2002), que inseriu, no âmbito das prioridades relativas à qualidade de vida e à gestão dos recursos vivos, a ação-chave relativa ao envelhecimento da população, com o objetivo geral de favorecer a saúde e a autonomia das pessoas idosas, referindo expressamente a doença de Alzheimer,
A. Considerando que o envelhecimento progressivo da população da União Européia e o aumento da esperança média de vida implicam uma maior ocorrência das doenças ligadas à idade, entre as quais a doença de Alzheimer e as síndromes afins,
B. Considerando que aproximadamente cinco milhões de famílias de todos os Estados-Membros se encontram sujeitas diariamente a indizíveis sofrimentos de caráter emocional, psicológico e financeiro,
C. Considerando que o grande número de projetos apresentados anualmente à Comissão pelas associações representativas dos doentes e das suas famílias na Europa, no âmbito das ações promovidas contra a doença de Alzheimer, põe em evidência que esta terrível doença se tornou um verdadeiro problema socioeconômico em todos os Estados-Membros,
1. Lamenta que nem a Comissão nem os Estados-Membros tenham até agora reagido de uma forma adequada aos seus pedidos de intensificação dos esforços no combate a esta doença em rápida expansão;
2. Lamenta, nomeadamente, que a Comissão ainda não tenha lançado um programa de ação de combate à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas, programa esse que iria dinamizar a investigação européia e coordenar as medidas tomadas a nível dos Estados-Membros;
3. Reitera o seu pedido urgente à Comissão para que apresente, no âmbito da futura comunicação sobre a saúde pública, um programa específico de ações de luta contra a doença de Alzheimer e as síndromes afins, tal como exposto na citada Resolução de 17 de Abril de 1996;
4. Salienta, dado o envelhecimento da população e o decorrente aumento do número de doentes de Alzheimer, a importância da investigação neste domínio, destacando a este propósito o caráter determinante das ações que se inserem no Quinto Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico;
5. Recorda à Comissão que, para a execução dos programas de ação relativos a outras doenças como, por exemplo, as ligadas à poluição, as doenças raras e as doenças originadas por ferimentos, foi previsto um
apoio financeiro comunitário; solicita, conseqüentemente, a adoção dos mesmos critérios para a doença de Alzheimer;
6. Solicita à Comissão que efetue um estudo sobre as conseqüências de ordem social e financeira da doença de Alzheimer na União e que comunique as suas conclusões ao Parlamento Europeu ao mesmo tempo que o referido programa de ação;
7. Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente resolução à Comissão, ao Conselho e aos governos dos Estados-Membros."
9 - CONCLUSÃO
É razoável pensar que a doença de Alzheimer resulta da contribuição de múltiplos fatores que modulam o aparecimento de placas senis e emaranhados neurofibrilares e que conduz, após décadas de evolução, à morte dos neurônios e à desorganização cerebral.
Em vez de tentar reduzir a uma só doença uma tão grande afeção deveremos considerar a doença de Alzheimer como uma síndrome com várias origens, que por vezes depende mais de fatores genéticos e outras de aspectos ambientais.
Estamos lentamente a conseguir resolver o quebra-cabeça mas temos ainda de aguardar por um tratamento realmente eficaz.
Embora os modelos animais estejam a ser muito úteis para compreender a doença, eles são limitados; nenhum rato vive durante décadas num contexto genético tão complexo como o dos humanos, nem num ambiente comparável.
Agora que decodificamos o genoma humano, a investigação concentrar-se-á nos cérebros dos pacientes que apresentam as proteínas patológicas.
Autora: Ruth ESPINOSA GARCIA sob a supervisão
de Graham CHAMBERS, STOA
As afirmações feitas nesta Nota informativa do STOA não refletem necessariamente as perspectivas do Parlamento Europeu.
Esta nota pode ser encontrada em:
http://www.europarl.eu.int/stoa/publi/default_en.htm
STOA@europarl.eu.int
Perspectiva sobre a doença de Alzheimer
Bibliografia
Artigos
·J.-J. Hauw, M.-A. Colle, S. Haik et C. Duyckaerts: "La mémoire en danger". Pour la Science × Dossier n.° 31 ×
Abril/Julho de 2001.
· Marcia Barinaga: "Is Apoptosis key in Alzheimer's disease?".
Science · vol. 281 · 28 de Agosto de 1998.
·Bruce, L. Miller, MD: "'Tau Mutations - Center Tent or
Sideshow?" Archives of Neurology. Vol 58 · n.° 3 · Março de
2001.
·Molecular neuropathology of Alzheimer's disease. CBMSO ·
Relatório de 1997/1998.
Páginas na Internet
· Doença de Alzheimer
www.mayoclinic.com/home?id=5.1.1.1.8.
· A genética por detrás da doença de Alzheimer
www.mayoclinic.com/home?id=AZ00011.
· Tratamento da doença de Alzheimer
www.mayoclinic.com/home?id=AZ00002&bucket=staged.
· Investigação da doença de Alzheimer: Uma vacina para a
doença de Alzheimer
www.mayoclinic.com/home?id=AZ00012.
· Doença de Alzheimer
www.ncbi.nlm.nih.gov/disease/Alzheimer.html.
· Ficha técnica sobre a doença de Alzheimer.
www.alzheimers.org/pubs/adfact.html.
·A doença de Alzheimer e a União Europeia: Resoluções
sobre a doença de Alzheimer
www.alzheimer-europe.org/ep.html.
· Relatório intercalar sobre a doença de Alzheimer, 1999.
www.Alzheimer\report%20Alzheimer_files\report%20Alzheier. htm.
|