FERTILIDADE E MEIO AMBIENTE
Como a poluição atmosférica e a má alimentação influenciam no surgimento das novas gerações
A interferência de condições ambientais desfavoráveis e maus hábitos alimentares tem chamado cada vez mais a atenção de médicos e pacientes, e dispendido enormes somas em pesquisas. Somente nos últimos anos, no entanto, passou-se a atentar para um detalhe da fisiologia masculina que estaria na linha de tiro desses fatores: a fertilidade.
Um problema de ordem cultural envolve casais às voltas com a infertilidade. Segundo o urologista Jorge Hallak, 10 a 15% dos casais não conseguem ter filhos após um ano de tentativas; em metade deles a
causa está no homem “e culturalmente a mulher se sente culpada quando não consegue engravidar”.
Questão de diagnóstico. O que outrora era diagnosticado como “infertilidadesem causa aparente”, hoje ganhou explicações um pouco mais profundas. Hallak integra o grupo de pesquisadores do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP e participa de um estudo sobre a influência da poluição atmosférica sobre a reprodução humana. Em estudos do início da década, Hallak apontou que, em áreas mais poluídas da capital paulista, houve diminuição no número de bebês do sexo masculino em relação aos do sexo feminino. Em outras palavras, a poluição atmosférica consegue alterar
a proporção de cromossomos X e Y no esperma.
A dieta dos espermatozóides
Dirceu Mendes Pereira, ginecologista especializado em reprodução humana e presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, é um apaixonado confesso pela nutrologia: “Nós somos o que comemos”. Assim, acredita que não seria menos esperado que os espermatozóides sofressem influência dos hábitos de vida, seja ela benéfica ou maléfica.
Não é novidade afirmar que a pouca preocupação com a alimentação tenha reflexos indesejados no organismo humano. A novidade, mesmo, é que a ingestão de alimentos contendo carboidratos refinados, gorduras trans e gorduras saturadas, por exemplo, podem causar danos na membrana do espermatozóide. Isso significa problemas na motilidade de uma célula que, mais do que qualquer outra, depende de propulsão para cumprir sua função vital.
Uma das hipóteses refere-se à sensibilidade do espermatozóide ao estresse oxidativo, quadro onde os antioxidantes presentes no organismo não conseguem mais controlar a contribuição dos radicais livres. Os antioxidantes – vitamina C e E, betacaroteno, licopeno, zinco, entre outros – são produzidos pelo corpo ou encontrados em frutas, verduras e legumes. Quanto aos radicais livres, trata-se de moléculas altamente instáveis e quimicamente reativas que podem danificar células do corpo, os espermatozóides por exemplo.
O excesso de radicais livres também pode interferir na quantidade e na morfologia do espermatozóide. Para Manoela Figueiredo, nutricionista da Clínica de Medicina Integrada Vânia Assaly, ocorrem também alterações hormonais – diminuição ou aumento da testosterona –, fazendo com que a situação necessária para a fertilidade fique comprometida.
O urologista Hallak acredita que o estudo da influência da alimentação seja dificultado pela abrangência e variedade de fatores envolvidos. Diz, entretanto, ser possível afirmar que a água utilizada para irrigação de lavouras raramente é isenta de metais pesados, assim como as verduras são raramente isentas de agrotóxicos. Tais elementos químicos inibem o reconhecimento do espermatozóide pelo óvulo e comprometem sua produção: “Como a espermatogênese [processo de formação de espermatozóides] é um fenômeno constante, de diversas as células são muito sofisticadas e sofrem agressão muito facilmente”.
O que faz bem
Existem, contudo, estudos que comprovam a ingestão de determinados nutrientes como benéfica
para os espermatozóides, como o publicado pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva relatando
que a combinação de ácido fólico e zinco eleva a produção de células reprodutivas masculinas: “Zinco é o motor do espermatozóide”, afirma o ginecologista Pereira.
Manoela Figueiredo cita outro estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Berkeley, mostrando que o alto consumo de antioxidantes está ligado a maior número de espermatozóides e a maior motilidade.
Hallak ainda menciona o acordo entre a Sociedade Americana de Andrologia e a Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA) para estudar os efeitos de poluentes ambientais e alimentares sobre a
fertilidade humana.
População em decréscimo
Interferências ambientais e alimentares sobre os espermatozóides colocam em questão a possibilidade de diminuir sua população. “Quando eu comecei nesta área de fertilidade, há 35 anos, o número de espermatozóides normal era de 60 milhões por ml de sêmen; agora está em 20 milhões”, conta o ginecologista Pereira que afirma, ainda, que na metade do século passado este número era de 120 milhões/ml.
Um documento publicado em 2003 pelo Greenpeace, traduzido como “Impactos na saúde humana de
substâncias sintéticas”, reforça esta tese afirmando que fatores ambientais e o estilo de vida “são as causas mais prováveis para o colapso da fertilidade masculina”.
Para Hallak, não se pode afirmar que a quantidade de espermatozóides tem diminuído, pois os métodos de avaliação são diferentes. “A minha impressão pessoal é que está havendo uma queda da qualidade espermática e não da quantidade”, comenta, atribuindo o problema a fatores ambientais que têm se agravado nos últimos dez anos.
E antes que os hipocondríacos corram para clínicas e hospitais, o urologista adverte que teste de espermograma não é teste de função espermática, “ele só dá alguns parâmetros que orientam a capacidade mínima do indivíduo ejacular espermatozóides minimamente capazes de fertilizar o óvulo”, completa.
A tecnologia tem dado sua contribuição. Desde 2005, Pereira e outros pesquisadores da Clínica e Centro de Pesquisa em Reprodução Humana Roger Abdelmassih trabalham na criação de espermatozóides e óvulos através de células troncos de ratos. Atualmente, testam suas funcionalidades e futuramente vão trabalhar em humanos. Mas as práticas de reprodução assistida não devem se sobrepor às práticas humanas convencionais: “Em áreas como a reprodução humana, criou-se uma pseudocultura onde vence a tecnologia em detrimento da boa prática médica”, critica Hallak.
É certo que poucos homens pensam em seus espermatozóides ao morder um sanduíche ou reclamar
da poluição do ar. Pereira acredita que há cinco anos tem ocorrido um despertar da importância da alimentação para a reprodução, mas a conscientização é lenta.
Porém, tamanha atenção para a fertilidade faz-se necessário ao constatar-se sua fragilidade no exemplo de Hallak: “A espécie humana, entre os mamíferos, só perde para os orangotangos na fragilidade da capacidade reprodutiva”.
Reportagem de Marcelo Villela Gusmão para AlphaNews Saúde- fev/08.
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